Posts Tagged ‘lo-fi’

Laura, Heather and Calvin

outubro 8, 2008

Não tenho muito o que escrever sobre o Beat Happening. Pelo menos nada que você não saiba. Então vou escrever mais ou menos o por que de todo esse universo da K Records ter um certo papel importante no meu senso musical.

Calvin Johnson é para mim uma das figuras mais importantes em termos de atitude perante o cenário musical. É claro que ele nunca vai entrar em alguma enciclopédia da música ou algum livro do tipo, apesar de ser uma das pessoas mais respeitadas quando se fala de pequenas gravadoras e produção musical independente.
No meio de todo aquele movimento punk/HC americano e do comecinho do grunge durante os anos 80, timidamente Calvin Johnson criou em Olympia um movimento próprio, usando a filosofia DIY do punk para quebrar os padrões convencionais do rock e, de certa forma, criou um novo modo de se portar na sociedade. A K Records e o Beat Happening adotaram o hoje batido senso estético “lo-fi”, com uma atitude primitiva e não convencional de tocar e gravar música.
Desde moleque, Calvin se interessou por música independente. Depois de crescer ouvindo Velvet e Stooges, em 1977 ele já passava grande parte de seu tempo contribuindo para um “certo” fanzine chamado Sub Pop… Alguns anos depois ele resolveu montar sua própria gravadora, com um único ideal: lançar discos de bandas desconhecidas que nenhuma outra gravadora lançaria, sempre fazendo tudo por conta própria, seja as capas dos discos, as gravações e a divulgação. Em uma entrevista para a CBC em 1995, ele disse que “só queria lançar os discos das bandas dos meus amigos, o que é exatamente o que eu faço até hoje…”.

Admiro essa “necessidade” de buscar por pequenas bandas desconhecidas. Desde que toda esse mito criado pela K Records chegou ao meu alcance, comecei a criar o interesse de pesquisar e passar para frente essas bandas.
Para entender mais sobre tudo isso do que eu resumidamente escrevi, recomendo a leitura do tão falado artigo do Nitsuh Abebe (cheguei a traduzir, mas nem lembro mais onde coloquei) e do obrigatório livro Our Band Could Be Your Life, do Michael Azerrad, sobre o cenário independente americano dos anos 80. Devo postar até o fim dessa semana o documentário The Shield Around the K sobre o legado da K Records.

Voltando para o Beat Happening, a caixa Crashing Through foi lançada em 2003 em uma edição de apenas 5.000 cópias. São os cinco discos de estúdio, um disco de raridades e b-sides e um sétimo disco com alguns vídeos e algumas canções de um show com o Vaselines.
É uma boa oportunidade para quem não conhece bem a banda ou a estética sonora confeccionada pelo mestre Calvin Johnson.

Beat Happening (1985)

Jamboree (1988)

Black Candy (1989)

Dreamy (1991)

You Turn Me On (1992)

Music To Climb The Apple Tree By (2003)

Bonus Disc (2003)

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Skip James

setembro 11, 2008

I laid down last night, tried to take my rest
My mind got to ramblin’, like a wild geese
From the west, from the west

Ouvir esse disco é como ouvir um telefonema direto dos anos 30, graças a Mississipi Records. Eles não tem site e nem lançam CDs. Eles compilam canções de artistas obscuros de folk, blues e americana, tudo em edições limitadas em vinil. O último lançamento deles é esse resgate de 12 das 18 músicas que continuam audíveis da primeira gravação de Skip James, de 1931. Depois dessa sessão, ele ficou mais de 30 anos sem gravar, só voltando a fazer isso quatro anos antes de sua morte, em 1969.
Seu trabalho ganhou uma atenção maior com a versão de “Jesus is a Mighty Good Leader” feita pelo Beck e por “Devil Got My Woman” ter feito parte da trilha sonora do Ghost World.
Skip James canta como se fosse um fantasma do passado, sussurrando em falsete enquanto utiliza sua técnica de dedilhar com três dedos, uma de suas principais características. Não se pode esperar muita qualidade depois dos 70 anos que se passaram desde a gravação, mas mesmo com o som abafado suas canções continuam maravilhosas.
A sensação de nostalgia ao ouvir os clicks e o chiado é impressionante.

Skip James – 1931 Sessions (2008) [Mississipi Records]

all about Jandek

agosto 31, 2008

Em outubro de 2004 na Escócia, um dos maiores mistérios do cenário musical foi desvendado. A data marca a primeira aparição em público do mito Jandek, depois de 26 anos lançando discos no anonimato. Nesse mesmo ano foi lançado o documentário Jandek on Corwood, que trata do barulho em torno da figura enigmática que estampa algumas das capas dos discos.
Desde então, muito já foi escrito e falado sobre Jandek, mas essa “exposição” não fez muita diferença para ele, que continua espancando seu violão desafinado, ora sussurrando ora gritando, e continua lançando em média dois discos por ano pela sua própria gravadora, a Corwood.
Para quem nunca ouviu falar dele, segue abaixo um artigo de 1999 escrito por Douglas Wolk.

Homem de Mistério – A História de Jandek
por Douglas Wolk

O enigma mais duradouro, estranho e solitário da música é um cara do Texas, que se nomeia Jandek. Seu disco The Beginning acabou de ser sair pela Carwood Industries (Box 15375, Houston, Texas 77220), que lançou todos os seus 28 discos e isso é tudo que sabemos sobre a gravadora. O disco vem acompanhado por uma reedição do sue primeiro álbum, Ready for the House, que foi lançado originalmente em 1978 sob o nome “The Units” (ele é o único músico da “banda” e todos os discos seguintes, e essa reedição, são sob o nome “Jandek”).

Jandek nunca tocou em público e nunca deu uma entrevista por vontade própria. Uma jornalista do Texas Monthly conseguiu localizá-lo alguns meses atrás. Eles conversaram sobre alergias e jardinagem, e ele educadamente disse que nunca mais gostaria de ser chamado para uma entrevista sobre o Jandek. As capas dos seus discos são fotografias granuladas e desfocadas de um homem, de partes de uma casa e algumas cortinas. Nas contra-capas tem escrito o nome “Jandek”, o nome do disco, as faixas com as durações e o endereço da Corwood, tudo escrito com a mesma fonte estranha. E é tudo o que todo mundo sabe.

E como é sua música? Pura desolação. Jandek não é só um projeto solo mas também profundamente solitário nas gravações, dedilhando de forma desordenada um violão desafinado, lamentando fora do tom sobre pensamentos, amor, caminhadas e Deus. Fora isso, há apenas o vazio: cada nota desafinada ecoa pelo espaço. Algumas vezes Jandek soa como algum cantor blues dos anos 20 e parece que as palavras são arrancadas uma por uma de seu corpo. Suas canções não tem refrões, ritmos, melodias e progressões, como a tediosa tortura-da-água-chinesa do livro The Unnameable, de Samuel Beckett: “I can’t go on, I’ll go on.”

Algumas pessoas quando ouvem Jandek pensam que é algum tipo de piada. Mas é difícil de imaginar uma brincadeira mantida meticulosamente por mais de 20 anos de gravações e lançamentos, e sempre no mesmo endereço. Outras pessoas simplesmente acham a música insuportável: é de fato monótona, feia e (na maioria das vezes) sem refino e completamente sem estrutura. E então há as pessoas que dificilmente conseguem ouvir outra coisa durante semanas, tão obcecadas pelo mistério de Jandek. (As vezes eu me encaixo na segunda categoria e outras vezes na terceira.)

A recompensa por essa obsessão é descobrir as nuances em sua obra cinzenta. Uma mulher, que deve se chamar Nancy, canta em algumas canções (“Nancy Sings”) e de vez em quando aparecem algumas pessoas tocando bateria ou outra guitarra, instrumentos que parecem nunca terem tocado antes. As vezes Jandek toca mais guitarra do que violão. No disco Lost Cause, de 1992, tem algumas canções que são até convencionais, mas a música que encerra o disco são 20 minutos de puro barulho, chamada “The Electric End”.

E mesmo pensando em sua obra como uma só – as notas desesperadas de “They Told Me About You”, do disco Ready for the House, e de “I Never Left You Anyway”, do The Beginning, gravadas com 21 anos de diferença, parecem ter vindo do mesmo impulso – cada disco tem uma identidade distinta e seu próprio momento de revelação. A faixa titulo do The Beginning é uma improvisação de piano de 15 minutos, um instrumento que Jandek nunca havia gravado antes, e claro, tão desafinado quanto você pode imaginar. E de alguma forma, Ready é a chave para o resto da obra de Jandek: ele usa frases de letras dos seus discos anteriores (Staring at the Cellophane, Chair Beside a Window, Somebody in the Snow), regravou “European Jewel” várias vezes, e criou um modelo para a sua carreira corajosa. Suas músicas precisam existir e serem ouvidas. Comparadas com a “verdadeira” música pop, as canções de Jandek são assustadoramente feias, mas pelas décadas de persistência, pelo alcance de seu trabalho, elas se tornaram intensamente bonitas e significativas. Elas são absolutamente expressivas, uma imagem desfocada de toda sua vida adulta. E assim ele respondeu para a jornalista do Texas Monthly, que perguntou se ele queria que as pessoas entendessem seu trabalho: “Não há nada para entender.”

Jandek – Discografia (55 discos)

Ariel Pink

agosto 28, 2008

Oddities Sodomies Vol. 1 é uma coletânea de sobras e versões gravadas entre 1997 e 2004, distribuída durante a turnê de 2008 “Thanks Mon, I’m Dead” e lançada agora pela Vinyl International. É um panorama de toda a genialidade de Ariel Pink, que começou a gravar suas músicas por conta própria em 1996.
A sonoridade peculiar assusta os desavisados. Quem ouve pela primeira vez, acha que está ouvindo alguma cópia da cópia de uma K7 de algum artista oitentista. Ariel grava todos os instrumentos (fazendo a bateria com a boca) usando um equipamento analógico de oito canais, criando canções que fogem de qualquer tipo de rótulo, apesar de ser clara algumas referências.
O mais incrível de ouvir Ariel Pink é a sensação de nostalgia, que soa estranhamente familiar. Parece ser aquela fitinha que o seu pai colocava para tocar no velho Opala, durante uma viagem para o interior.

Ariel Pink – Odditties Sodomies Vol. 1 (2008) [Vinyl International]

PS: agradeço a (L) pelo link.

“Chora, meu serrote”

agosto 10, 2008

Photobucket

A Elephant Six tem um papel importante na minha formação musical. É de lá que veio a minha curiosidade por gravações lo-fi, experimentações com loops e a utilização de instrumentos não usuais. E um dos projetos que mais se encaixa nesses quesitos é o The Music Tapes, liderado por Julian Koster, um dos fundadores do lendário Neutral Milk Hotel.
For Clouds And Tornadoes é o seu melhor disco. A sua devoção ao “violino de serrote” continua ali, mas tudo está bem mais conciso que nas outras gravações. O disco contou, como sempre, com a participação de outros membros do coletivo E6 e foi gravado com vários equipamentos antigos, criando o clima nostálgico lo-fi do disco.
É o tipo de disco que eu gostaria de gravar: juntar os amigos no quintal, com alguns instrumentos bacanas e fazer tudo isso sem qualquer tipo de pressão.

Photobucket
The Music Tapes – For Clouds And Tornadoes [2008] [Merge]

Tickley Feather – Tickley Feather (Paw Tracks) (2008)

maio 5, 2008

Tickley Feather

Esse disco está sendo a surpresa do ano para mim, até então. Tickley Feather é Annie Sachs, uma garota que cresceu em uma Virginia rural, o que influenciou bastante no estilo bucólico e orgânico de suas músicas. Totalmente gravado em casa com um gravador de quatro canais, o disco é composto por 20 canções, sendo que algumas são apenas vinhetas contando com a participação de sua filha. São canções simples (apenas duas passam dos três minutos de duração) dominadas por um clima hippie lo-fi, feitas enquanto Annie tentava se adaptar à condição de mãe solteira, o que torna o disco bastante pessoal e intimista. Apesar de ter sido gravado em casa, cada barulhinho parece ter sido meticulosamente colocado no lugar certo, sem soar cabeção demais e fazendo com que a audição seja deliciosa.
Comparada pela crítica com o trabalho de Syd Barrett, Kate Bush e Gilli Smith, Annie Sachs entra para o seleto grupo de jovens que desconstroem e reconstroem livremente a música pop, como Panda Bear, High Places e a Jullianna Barwick. O disco foi lançado pelo selo do pessoal do Animal Collective, que inclusive a convidaram para participar da turnê americana da banda.
Com certeza você não vai ouvir falar muito dela e nem deve aparecer nas listas dos melhores do ano das revistas e sites especializados, mas é um disco que vai adocicar meia hora do seu dia.

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