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all about Jandek

agosto 31, 2008

Em outubro de 2004 na Escócia, um dos maiores mistérios do cenário musical foi desvendado. A data marca a primeira aparição em público do mito Jandek, depois de 26 anos lançando discos no anonimato. Nesse mesmo ano foi lançado o documentário Jandek on Corwood, que trata do barulho em torno da figura enigmática que estampa algumas das capas dos discos.
Desde então, muito já foi escrito e falado sobre Jandek, mas essa “exposição” não fez muita diferença para ele, que continua espancando seu violão desafinado, ora sussurrando ora gritando, e continua lançando em média dois discos por ano pela sua própria gravadora, a Corwood.
Para quem nunca ouviu falar dele, segue abaixo um artigo de 1999 escrito por Douglas Wolk.

Homem de Mistério – A História de Jandek
por Douglas Wolk

O enigma mais duradouro, estranho e solitário da música é um cara do Texas, que se nomeia Jandek. Seu disco The Beginning acabou de ser sair pela Carwood Industries (Box 15375, Houston, Texas 77220), que lançou todos os seus 28 discos e isso é tudo que sabemos sobre a gravadora. O disco vem acompanhado por uma reedição do sue primeiro álbum, Ready for the House, que foi lançado originalmente em 1978 sob o nome “The Units” (ele é o único músico da “banda” e todos os discos seguintes, e essa reedição, são sob o nome “Jandek”).

Jandek nunca tocou em público e nunca deu uma entrevista por vontade própria. Uma jornalista do Texas Monthly conseguiu localizá-lo alguns meses atrás. Eles conversaram sobre alergias e jardinagem, e ele educadamente disse que nunca mais gostaria de ser chamado para uma entrevista sobre o Jandek. As capas dos seus discos são fotografias granuladas e desfocadas de um homem, de partes de uma casa e algumas cortinas. Nas contra-capas tem escrito o nome “Jandek”, o nome do disco, as faixas com as durações e o endereço da Corwood, tudo escrito com a mesma fonte estranha. E é tudo o que todo mundo sabe.

E como é sua música? Pura desolação. Jandek não é só um projeto solo mas também profundamente solitário nas gravações, dedilhando de forma desordenada um violão desafinado, lamentando fora do tom sobre pensamentos, amor, caminhadas e Deus. Fora isso, há apenas o vazio: cada nota desafinada ecoa pelo espaço. Algumas vezes Jandek soa como algum cantor blues dos anos 20 e parece que as palavras são arrancadas uma por uma de seu corpo. Suas canções não tem refrões, ritmos, melodias e progressões, como a tediosa tortura-da-água-chinesa do livro The Unnameable, de Samuel Beckett: “I can’t go on, I’ll go on.”

Algumas pessoas quando ouvem Jandek pensam que é algum tipo de piada. Mas é difícil de imaginar uma brincadeira mantida meticulosamente por mais de 20 anos de gravações e lançamentos, e sempre no mesmo endereço. Outras pessoas simplesmente acham a música insuportável: é de fato monótona, feia e (na maioria das vezes) sem refino e completamente sem estrutura. E então há as pessoas que dificilmente conseguem ouvir outra coisa durante semanas, tão obcecadas pelo mistério de Jandek. (As vezes eu me encaixo na segunda categoria e outras vezes na terceira.)

A recompensa por essa obsessão é descobrir as nuances em sua obra cinzenta. Uma mulher, que deve se chamar Nancy, canta em algumas canções (“Nancy Sings”) e de vez em quando aparecem algumas pessoas tocando bateria ou outra guitarra, instrumentos que parecem nunca terem tocado antes. As vezes Jandek toca mais guitarra do que violão. No disco Lost Cause, de 1992, tem algumas canções que são até convencionais, mas a música que encerra o disco são 20 minutos de puro barulho, chamada “The Electric End”.

E mesmo pensando em sua obra como uma só – as notas desesperadas de “They Told Me About You”, do disco Ready for the House, e de “I Never Left You Anyway”, do The Beginning, gravadas com 21 anos de diferença, parecem ter vindo do mesmo impulso – cada disco tem uma identidade distinta e seu próprio momento de revelação. A faixa titulo do The Beginning é uma improvisação de piano de 15 minutos, um instrumento que Jandek nunca havia gravado antes, e claro, tão desafinado quanto você pode imaginar. E de alguma forma, Ready é a chave para o resto da obra de Jandek: ele usa frases de letras dos seus discos anteriores (Staring at the Cellophane, Chair Beside a Window, Somebody in the Snow), regravou “European Jewel” várias vezes, e criou um modelo para a sua carreira corajosa. Suas músicas precisam existir e serem ouvidas. Comparadas com a “verdadeira” música pop, as canções de Jandek são assustadoramente feias, mas pelas décadas de persistência, pelo alcance de seu trabalho, elas se tornaram intensamente bonitas e significativas. Elas são absolutamente expressivas, uma imagem desfocada de toda sua vida adulta. E assim ele respondeu para a jornalista do Texas Monthly, que perguntou se ele queria que as pessoas entendessem seu trabalho: “Não há nada para entender.”

Jandek – Discografia (55 discos)

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Ariel Pink

agosto 28, 2008

Oddities Sodomies Vol. 1 é uma coletânea de sobras e versões gravadas entre 1997 e 2004, distribuída durante a turnê de 2008 “Thanks Mon, I’m Dead” e lançada agora pela Vinyl International. É um panorama de toda a genialidade de Ariel Pink, que começou a gravar suas músicas por conta própria em 1996.
A sonoridade peculiar assusta os desavisados. Quem ouve pela primeira vez, acha que está ouvindo alguma cópia da cópia de uma K7 de algum artista oitentista. Ariel grava todos os instrumentos (fazendo a bateria com a boca) usando um equipamento analógico de oito canais, criando canções que fogem de qualquer tipo de rótulo, apesar de ser clara algumas referências.
O mais incrível de ouvir Ariel Pink é a sensação de nostalgia, que soa estranhamente familiar. Parece ser aquela fitinha que o seu pai colocava para tocar no velho Opala, durante uma viagem para o interior.

Ariel Pink – Odditties Sodomies Vol. 1 (2008) [Vinyl International]

PS: agradeço a (L) pelo link.

ursos e águias

agosto 25, 2008

Daniel Rossen, principal compositor e voz do grande Grizzly Bear, tinha um projeto musical com o seu companheiro de quarto Fred Nicolaus, na Universidade de NY. Os dois começaram a gravar de brincadeira, só para passar o tempo, usando o equipamento não muito profissional do vizinho Cris Taylor (também do Grizzly Bear) e gravaram alguns CD-Rs para distribuir entre os amigos. O tempo passou, Daniel se juntou ao Grizzly Bear, foram aclamados pela critica ao lançarem o Yellow House e saíram em turnê pelo mundo. Durante as pausas e nos fins de semana, Fred e Daniel trocavam materiais na medida que gravavam, esperando o momento para lançarem um segundo disco.

Depois de quatro anos, enfim sai In Ear Park do Department of Eagles. O disco foi produzido pelo Chris Taylor, que também tocou baixo e metais, e teve a ajuda do baterista do Grizzly Bear, Chris Bear.
In Ear Park é uma coleção de canções pessoais, onde Daniel aproveitou para escrever sobre sua infância, principalmente sobre o relacionamento com seu pai, que faleceu enquanto estava em turnê, em 2007.  Fugindo um pouco do experimentalismo do Grizzly Bear, Department of Eagles é mais direto e conta com uma produção mais sutil, apesar de ser a mesma voz e existir alguns elementos característicos do freak-folk. É um daqueles discos bonitos que cresce em cada audição, ou como li em uma resenha, “um álbum perfeito para aquele seu amigo que não curte Grizzly Bear (se vocês ainda continuam amigos…)”.
Department of Eagles – In Ear Park (2008) [4AD]

Lambchop

agosto 25, 2008

Lambchop é Kurt Wagner. E como qualquer pessoa passa por diversas fases, o grupo já flertou com vários tipos de sonoridades, do pós-rock ao soul. Nesses 20 anos de carreira, Kurt sempre manteve um pé no folk e country, sendo um dos expoentes do chamado “country alternativo”.
OH (Ohio) é o décimo segundo álbum de estúdio da banda e novamente percebe-se que o Lambchop é um canal que Kurt usa para divulgar o seu lirismo. Aqui ele soa mais calmo que o normal, evocando as raízes soul do folk de Nashville, cidade em que Kurt mora há 13 anos.
11 canções para ouvir sentado na varanda (caso você tenha uma), olhando o casal de velhinhos, as crianças correndo ou apenas o tempo passando.

Lambchop – OH (Ohio) (2008) [Merge]

Elverum, Doiron, Squire e as montanhas

agosto 20, 2008

Pouco da música que é feita hoje em dia me atinge com tanta força quanto a que é feita em um pequeno quarto em uma simplória cidade em Washington. Essa simplicidade enfim pairou sobre o Mount Eerie, atual projeto principal do Phil Elverum. Depois de lançar discos elaborados, Lost Wisdom é um álbum mais tranqüilo. A densidade antes presente nos instrumentos e climas sobrepostos, agora se concentra nas letras e vozes, isso por contar com a participação da Julie Doiron. Faz todo o sentido ela ter sentado ali na sala de Phil para gravar esse disco, pois se tem alguma voz que combina com a temática do Mount Eerie, essa voz é a dela. Já tinha ouvido algumas dessas músicas em bootlegs, mas agora elas tem aquela força própria presente nos discos anteriores.
Gravado durante uma visita de Julie Doiron e Fred Squire, Lost Wisdom se resume em vozes, violão e guitarra. Enquanto Phil dedilha seu sempre presente violão de nylon, Squire acompanha com a guitarra, ora com sutileza, ora com intensidade, servindo de pano de fundo para o profundo dueto de vozes. A paisagem montanhosa da janela da sala está presente em cada canção desse álbum. Cada palavra parece distante e perto ao mesmo tempo. A sensação é a de que elas percorreram um longo caminho até chegar nos meus ouvidos, indo direto para o coração. Como um sopro frio descendo montanhas.

Mount Eerie – Lost Wisdom (2008) [P.W. Elverum & Sun]

No Age & Liars

agosto 20, 2008

Esse split foi vendido durante a turnê conjunta do No Age e Liars, no inverno desse ano. Para cada cidade, era vendido um compacto de cor e arte diferente. O desse post foi ripado da versão de Denton, limitada em 18 cópias. Coisa rara!
A faixa do Liars é uma cover do Jonathan Halper e lembra a fase do disco They Were Wrong, So We Drowned, porém, menos esquizofrênica.
Já a música do No Age é tudo aquilo que se pode esperar da banda: barulho juvenil! Te faz torcer para alguém trazê-los para tocar por aqui. Uma das melhores bandas da leva atual, com certeza.


Liars & No Age – Winter ’08 Tour 7″ (2008)

com a palavra, Dan Deacon

agosto 19, 2008

Esse compacto foi lançado pelo pessoal do 307 Knox, em uma edição limitada prensada em vinil roxo.
De um lado Dan Deacon, e Future Islands do outro lado. A música do Future Islands foi gravada em 2006 e masterizada pelo Dan.

Dan Deacon escreveu sobre as musicas que ele escolheu para colocar nesse split:

“As musicas que estão nesse disco foram feitas entre 2003 e 2008. Eu apenas quis juntar algumas canções divertidas e bobas, para contrastar com algumas coisas mais intensas que estou trabalhando para meu disco novo. Aqui vai algumas notas sobre as musicas:

Mark Brown: essa canção foi feita quando eu estava na turnê do Ultimate Reality. É uma simples peça dançante de bateria eletrônica e um midi de clarinete, modulada através de um LFO (Low Frequency Oscillator). Fazia tempo que não criava uma canção divertida para festas regadas a pizzas, e me senti muito bem quando essa musica saiu. Foi originalmente lançada na compilação Wham City Box (edição limitada em 50 cópias).

Crank It: essa canção manipulada dos Beatles fez parte de uma grande colagem sonora para uma música. Foi feita em 2003. Você quase não consegue reconhecer qual é a canção, já que é bastante densa, mas eu gosto desse jeito. Eu sei que ficou terrível, me desculpem. Mas vamos em frente!

Shoe Faces: essa também é parte de uma grande colagem. Diferente de “Crank It”, essa é uma peça original. “Shoe Faces” é um movimento para a música “George Washinghands”. Nessa música, cinco vocalistas tinham que gravar enquanto ouviam a original, tentando repetir exatamente o que ouviam. De qualquer forma, essa pequena parte sempre me fez sorrir e pensei que seria legal mostrá-la dessa forma.

Elf Wire: acho que isso é de 2002. Tinha começado a mexer com música eletrônica. Dei um nome para ela só para esse lançamento.

Silver Bells: uma música clássica de beleza atemporal. Esse arranjo foi feito em 2007 na Irlanda no meio de uma turnê. Foi originalmente lançada na Baltimas 3, que é uma compilação limitada de natal da Wham City que sai todos os anos.

Bem, espero que essas explicações não foram chatas. Fico imaginando se alguém vai ler tudo isso. Se sim, obrigado pela paciência! Espero que gostem do meu lado nesse compacto. Me diverti bastante escolhendo essas músicas.

Sinceramente, Dan Deacon.
Baltimore, Maryland
01/07/2008

Dan Deacon / Future Islands – split 7″ (2008) [307 Knox Records]